Em meio a vastidão dourada do deserto, onde o horizonte flutua como um véu de miragens... o viajante caminhava com passos lentos, o sol a lhe moldar a sombra longa sobre a areia. Cada grão brilhava como uma partícula de eternidade, mas o viajante não via nos grãos o que o árabe, ao pé da palmeira, contemplava com olhos marejados de um pesar profundo.
Ali estava ele, o arabe, inclinado, quase curvado pela dor invisível que só os de alma sensível conseguem sentir. Seus cavalos repousavam sob o abrigo breve das folhas, mas ele, imóvel, parecia mergulhado em um abismo interno, como quem tentasse encontrar um eco perdido no vazio infnito do tempo...
O viajante,ao aproximar-se, não pode deixar de notar a sombra pesada no semblante daquele homem, e, com a curiosidade dos que desejam compreender a alma humana, ofereceu sua ajuda. Contudo, nada prepararia o viajante para a resposta que recebeu, para a história que ouviu, para o peso de uma perda que não se pode pesar.
A joia perdida. Uma pedra talhada na essencia da propria vida, forjada na oficina do tempo, adornada por brilhos que eram mais do que simples minutos e segundos; eram instantes, momentos, suspiros que jamais se repetem. O arabe falava como quem descreve um tesouro divino, e, ao mesmo tempo, como quem lamenta uma perda que corrói as fibras mais delicadas da existência.
"Era um dia," ele dissera, "e um dia que se perde jamais retorna..."
As palavras pousaram como um vento silencioso no coração do viajante.Mas... enquanto o arabe se perdia em sua melancolia, o viajante começou a imaginar.
E se aquele dia perdido não fosse apenas uma lembrança que se desmanchava como grãos de areia entre os dedos??? E se ele ainda existisse, escondido em algum canto do deserto, como um fragmento de tempo esquecido??? E se... o dia fosse uma entidade viva, vagando pela eternidade, a espera de ser encontrado????
Ele vislumbrou, com a mente envolta em fantasia,um palacio de cristal enterrado sob as dunas. Nele, o tempo era senhor absoluto, um guardião das horas que os homens desperdiçam, dos dias que deixam escapar. Salões repletos de relógios brilhantes, onde cada ponteiro era feito de ouro celestial e cada tique-taque ecoava como um sussurro das eras passadas. Talvez, naquele reino etéreo, estivesse guardada a joia perdida do arabe, aguardando um coração puro que a reivindicasse...!!!
Mas como encontrar algo tão precioso???? O viajante, tomado por um subito fervor, começou a questionar-se: quantas joias eu mesmo já perdi? Quantos dias deixei passar como se fossem folhas ao vento, sem perceber que cada um era unico, irrepetivel??? Talvez a dor do arabe não fosse apenas dele; talvez fosse a dor de todos os homens, que, no fim, reconhecem que as maiores riquezas da vida não podem ser recuperadas.
E... assim, o viajante sentiu-se pequeno diante da grandeza do tempo. No silencio que se seguiu, o arabe ergueu os olhos, como se lesse os pensamentos do outro. Sua voz veio baixa, quase como uma prece:
"Cada dia é uma jóia, viajante. Alguns passam despercebidos, outros brilham como diamantes sob a luz do sol. Mas todos, sem exceção, são tesouros. Perder um é como deixar escapar um pedaço da alma. Não busque a minha joia perdida, porque ela já se foi. Mas guarde bem as suas. Proteja cada instante como se fosse o ultimo, pois um dia, no ocaso da vida, você verá que eram elas que sustentavam seu espirito..."
O viajante, tocado pela sabedoria que parecia brotar não apenas do homem a sua frente, mas do proprio deserto que os rodeava, partiu com o coração diferente. Cada passo que dava parecia mais consciente, como se carregasse em si o peso e a leveza de cada segundo que passava.
E... talvez, pensou ele, o deserto, com suas miragens infinitas, não fosse apenas areia e vento. Talvez fosse também o espelho do tempo, um lugar onde os dias se perdem, mas onde aqueles que procuram podem encontrar, não o que já se foi, mas o que ainda pode ser vivido...!!!
O sol, em seu caminho eterno, mergulhava no horizonte, tingindo o céu de um ouro que só existe nos finais de tarde. E... por um breve momento, o viajante sentiu como se tivesse osua propria joia: aquele instante, aquele dia, aquele momento em que o coração, a mente e a alma estavam alinhados com a eternidade!!!
Talvez, ele pensou, a verdadeira joia seja aprender a não perder mais....
TEMPO!!!
Aurora - TilaC
Imagem de minha autoria com IA

1 Comments
E a Luz atravessa um prisma e revela-se.
ResponderEliminarOu talvez não...
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT