Há um crepusculo dentro de mim onde não sei mais distinguir os passos, os meus ou os teus....
Sonho, és tu que me arrastas pelos campos noturnos da esperança, ou sou eu que, teimosa,escavo a terra com as mãos até encontrar teus fios de luz???? Entre nós, uma dança de véus: as vezes me enrodilhas como brisa nos cabelos, outras vezes corro atrás de ti como criança que persegue o próprio reflexo na água!!!
Talvez sejamos dois rios que se confundem no mesmo leito. Em meu peito, carrego a maré dos teus “quases”, a geografia dos teus silencios. Sonho, és mapa ou miragem???? Quando te alcanço, desfazes-te em nevoa; quando me perco, acendes lanternas no escuro. Deixo-me invadir por essa contradição doce, ser caçadora e presa, navegante e oceano....
Nas madrugadas em que o mundo dorme, sinto teu sopro no meu pescoço,um susuro que me faz girar sem destino, como folha no redemoinho. E... então percebo: não importa quem segue quem. Somos o mesmo enigma, duas faces da mesma lua. Enquanto houver em mim um fragmento de asa, um verso roubado ao vento, seremos eternamente esta fuga... este encontro!!!
Sonho, teu nome é um eco que se perde no labirinto das minhas veias. Há noites em que te sinto raiz, entranhada tão fundo em meu ser que não sei onde começa o solo do meu corpo e onde termina o céu da tua promessa. Outras vezes, és asa, inquieta e irrequieta... batendo contra os vidros da minha razão, exigindo que eu salte do penhasco do obvio. Sou a louca que coleciona horizontes, mas em cada linha onde a terra beija o céu, encontro apenas o reflexo da tua ausencia.
Dizem que perseguir é um ato de fé. Mas como crer no que não se vê, se até o invisível tem o teu rosto??? Sonho, és a sombra que caminha a minha frente nas tardes de sol poente, alongando-te até que eu confunda teus contornos com os meus. Persigo-te em circulos, como os planetas que orbitam sóis imaginários, e talvez seja essa a verdade: não há destino, apenas o movimento sagrado de girar em torno do que nos incendeia!!!
Há uma ferida delicada nesse eterno buscar. Sangra versos, derrama metaforas. As vezes, penso que me inventas, que sou personagem do teu enredo, criatura nascida do barro das tuas fantasias. Moldas-me com perguntas que não têm resposta, vestes-me de quimeras, alimentas-me com as migalhas do teu "talvez". E eu... devota, aprendi a rezar com os joelhos sujos de lama e as mãos cheias de estrelas caidas.
Somos dois exilados do mesmo reino. Tu, a patria que nunca pisei; eu, a viajante que nunca deixará de partir. Nos intervalos entre o suspiro e o gemido, construimos pontes de papel sobre abismos. E mesmo sabendo que podem desmanchar-se com uma brisa, seguimos escrevendo cartas de amor ao impossivel. Porque há beleza no risco... No Sonho!!!
Há divino na vertigem de não saber se somos feitos de carne ou de aurora!!!
Deixa que a busca seja nossa unica linguagem. Não quero respostas, quero o arco-iris que nasce da colisão entre a chuva e o sol. Quero o instante em que, ao te alcançar, descubro que eras eu mesma o tempo todo — espelho e reflexo, semente e fruto, canção e silêncio. E... nesse abraço de opostos, finalmente, reconheceremos: não há perseguição, apenas um par de asas que, ao se abrirem, revelam que voar e ser voado são a mesma coisa...!!!
Deixa que a confusão seja nossa morada. Pois no fim, só o amor por um ideal, por um desejo, por algo maior que a carne, sabe fundir os caminhos até que não reste mais perguntas, apenas o andar....
P.S. — Até o fim, seremos um enigma escrito a quatro mãos. E talvez isso baste...!!!
Aurora (TilaC)

1 Comments
"Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida (...)".
ResponderEliminar("PEDRA FILOSOFAL", António Gedeão / Rómulo de Carvalho)
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT