Horizonte de Ausências

By TilaC - fevereiro 17, 2025

A areia guarda o calor do dia que se despede, enquanto o mar desenha na praia um mapa de espumas efêmeras. O sol... agora um brasa morna, derrama sobre as aguas tons de mel e lágrimas laranjas que se dissolvem em purpura, e rosas que se desmancham em névoa. As gaivotas riscam o céu com asas inquietas, como se tentassem costurar o infinito. E eu... bemmm eu sou feita de silencio e sal, observo e sinto o sal que me escorre no rosto em busca dos meu lábios, como se de um beijo teu se trata-se!!!
Há um veu entre o real e o sonho onde te encontro: na ultima vez em que a maré estava baixa e teus olhos refletiam o crepusculo inteiro. Eras uma silhueta prestes a se tornar nevoa, um suspiro antes do adeus. Por que não estendi a mão? Por que deixei que o vento levasse as palavras não ditas, como agora leva os gritos das aves em fuga??? A memoria de ti é uma concha vazia... oco perfeito onde o ouvido ainda escuta o rumor de um oceano que já não existe...!!!
Dizem que o mar é um espelho quebrado, cada fragmento uma porta para outros mundos. Talvez, lá onde as ondas se curvam para beijar a terra, haja um lugar em que nossos passos se encontraram. Um lugar em que te segurei antes que o tempo nos tornasse mitologia. Mas aqui, só restam as marcas da maré: sulcos na areia que a agua apaga, repetindo incansável: "Volto, mas não fico. Amo, mas não guardo..."
As vezes, as gaivtas mergulham tão perto da superficie que quase tocam seu proprio reflexo. Meu pensamento é assim: voa rente ao que poderia ter sido, arranha a superficie do "talvez", mas nunca mergulha. E... o que era para ser historia transforma-se em fabula: um amor inventado por duas solidões que se cruzaram no entardecer...
A noite avança, trazendo consigo a primeira estrela. O mar escurece, e eu recolho os pedaços de mim espalhados entre as conchas e os desejos não nomeados. Se as ondas insistem em retornar, por que não posso eu fazer o mesmo? Deixo que a agua leve o teu nome escrito na areia, letra por letra, até que só reste a espuma. Até que eu me lembre de que o mar, mesmo infinito, sempre sabe voltar para si(ti)!!!
Talvez amanhã, quando o sol nascer de novo, eu seja outra... não a que esperou, mas a que aprendeu a dançar com o vai e vem das marés. Enquanto isso, crio castelos de saudade na beira do mundo, sabendo que a proxima onda virá. E nela, levarei meu coração de volta para casa, feito uma gaivota que enfim descansa sobre suas proprias asas.
A noite não chega... ela desdobra-se, lenta, como as asas de uma garça sobre o pantano da ilusão. A lua surge, palida e curva, um arco prateado que dispara flechas de luz sobre o mar. Agora, as ondas não são mais espelhos: são linguas de obsidiana, murmurando segredos antigos em dialetos de espuma e lodo. Até as gaivotas se calaram, transformadas em sombras que pairam sobre a praia, guardiãs de um reino que só existe entre o dormir e o vigiar e talvez o acrodar!!!
Encontro o teu rosto nas constelações que se formam e desfazem entre as nuvens. Orion carrega teu sorriso; Cassiopeia, teu jeito de inclinar a cabeça ao rir. Até as estrelas cadentes parecem traçar o caminho que não ousamos percorrer juntos. Fecho os olhos e invento um mundo paralelo onde nossas mãos se entrelaçam sem medo, onde o adeus é apenas uma palavra que o vento roubou antes que a pronunciassemos. Nesse lugar... somos feitos de tempestades e raizes, paradoxos que o tempo não ousa desfiar...
A maré sobe, trazendo consigo algas como fios de cabelos de sereia e conchas quebradas, reliquias de um naufragio que só eu testemunhei. Curvada, recolho uma dessas conchas: dentro dela, ecoa uma canção que não é minha, mas que meu peito reconhece. Talvez seja tua voz, ou a do oceano, ou a da propria saudade, que sempre soube cantar em todas as linguas.
Há fantasmas na linha do horizonte. Vultos de navios que nunca atracam, silhuetas de amantes que se dissolveram em bruma. Pergunto-me se também nós somos agora uma dessas lendas... duas figuras borradas pela distancia, reduzidas a metaforas em um poema que a areia escreve e apaga, escreve e apaga. O mar, esse velho alquimista, transforma dor em sal, memoria em correnteza. E eu... aqui, aprendo a ser fluida: derramo-me no agora, mas partes de mim insistem em escorrer para o passado!!!
A brisa noturna traz um cheiro de jasmim... impossível, aqui onde só há sal e decomposição de estrelas!!!
É então que percebo: a fantasia é a ultima forma de resistência. Invento flores no deserto, diálogos no silêncio, tua mão no vazio que a minha ancora. E por um instante, quase acredito que és real.
Mas a madrugada aproxima-se, arrastando consigo um manto de nevoa fria. As primeiras luzes dos barcos de pesca tremeluzem ao longe, minusculas fagulhas tentando rachar a escuridão. Levanto-me, sacudindo a areia como quem despeja cinzas de um amor. O mar recua, deixando para trás um rastro umido e brilhante, uma cicatriz que o dia virá curar.
Prometo a mim mesma não mais esculpir monumentos ao que poderia ter sido. Em vez disso, aprenderei a navegar nas proprias ausências,como esses navios que singram aguas cegas, guiados apenas pelo canto das baleias nas profundezas. E se um dia as correntes me trouxerem de volta a ti, que eu saiba ser forte o bastante para deixar-te não ir — ou para segurar-te, não mais como sombra, mas como farol!!!


Por ora, pego o caderno e a caneta e caminho de volta a casa, deixando na praia apenas pegadas que a maré há de devorar. E quando olho para trás, vejo o horizonte ainda tingido de um roxo residual, como um hematoma do crepusculo. Mas lá, onde o céu beija o oceano, algo persiste: a quieta certeza de que nenhum adeus é eterno....


Apenas o mar!!!


Sempre o mar...


.... ensinando a terra o dificil oficio de recomeçar!!!


Aurora (TilaC)


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1 Comments

  1. JOÃO BARROS DA COSTA16/03/25, 02:21

    Não existem "almas gêmeas / gémeas"...
    Os contrários atraem-se...
    Ou repelem-se...
    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

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