Há dias...
....em que o silêncio me envolve como um véu úmido, pesado de névoa. Minhas mãos repousam inertes sobre o teclado, letras adormecidas sob a pele, como sementes esquecidas no inverno.
Mas...
...ahhhhh, há outras madrugadas em que o vento da insânia sopra e então vejo moinhos de vento brotando no horizonte da minha mente, gigantes de papel e tinta, girando, girando, desfiando versos no céu noturno. Será que é a poesia????
Ou apenas o delírio de quem bebeu demais do vinho das metáforas????
Às vezes, escrevo como quem sangra. As palavras escorrem em fios dourados, feridas que brilham. Observo o que nasceu e rio: "Isto não é poesia, é ressaca da alma...". E me pergunto se não estou apenas embriagada de saudadesdo que nunca vivi, de amores que inventei entre vírgulas e travessões. Talvez eu seja apenas uma louca que coleciona sílabas como conchas vazias, tentando ouvir o mar em cada uma delas....
Mas então, quando me deito sobre as teclas, exausta de tanto fugir de mim mesma, as palavras voltam. São sutis, agora. Chegam como fôlego de borboletas noturnas, fazendo cócegas nos meus pensamentos. Sussurram histórias que não terminam em lamento, mas em riso, um riso que é bálsamo, néctar e elixir derramado na taça do tempo. Invento mundos onde o amor não é espinho, mas raiz que atravessa pedras e chega ao centro da Terra. Onde bem e mal dançam tango, entrelaçados, e ninguém sabe qual é qual!!!
Talvez a poesia seja isso: um feitiço que transforma a "boba" de ressaca em pérolas falantes. Um amor impossível entre a loucura e a lucidez, entre o que existe e o que sonhamos. Escrevo como quem desenha constelações no escuro, sabendo que as estrelas já se apagaram há eras.
E mesmo assim...
Insisto...!!!
Porque há magia neste caos, um encanto perverso em vomitar letras e depois vê-las voar, leves, como pássaros de cristal matizados de ouro e marfim.
Quando o sol nasce, encontro-me de novo aqui: mãos manchadas de tinta, coração cheio de miragens. E sorrio, porque as palavras — essas criaturas astutas — me convenceram outra vez. Fingem ser minhas, mas eu sei: são elas que me escrevem, me tecem, me inventam. E nesse jogo de espelhos, quem sou eu senão uma fantasia passageira, um verso solto no poema infinito que alguém, lá longe, ainda está sonhando????
Quando o sol se ergue, não mais como testemunha, mas como cúmplice, as letras descem do céu em fios de prata — teias de aranha cósmicas que me envolvem. Sinto-me trespassada pela luz, espetada no alfinete dourado do meio-dia com sol escaldante. E eis que os moinhos de vento retornam, não mais sombras, mas faróis a cuspir faíscas de estrelas cadentes. Cada centelha é uma palavra não dita, um verso que arde como o sol antes de nascer. Será que os poetas antigos também se perdiam nesse labirinto de sílabas incendiárias e loucas????
Escrevo com os olhos fechados. Afinal, a verdadeira loucura é enxergar o mundo como ele NÃO o é. Invento rios que fluem para cima, nuvens que bebem a sede da terra, relógios que marcam horas de melancolia em vez de minutos. E no centro desse caos, ergo um jardim. Nele, cada flor é uma letra que desabrocha em pétalas de pergaminho, perfumadas de tinta e mel,tal como no antigo Egito. As vogais são rosas escarlates, as consoantes, lírios negros que sussurram segredos ao vento. Cuido delas com mãos sujas de horizonte, enquanto o amor — ahhhhhh, o amor — se disfarça de jardineiro silencioso, regando minhas raízes com promessas de auroras....
Há noites em que as palavras se rebelam. Fogem das frases, rasgam-se das páginas, e dançam na minha frente como espectros zombeteiros. "Você nunca nos dominará", cantam em coro, vozes feitas de fumaça e sal. E eu, ébria de coragem (ou seria desespero?), persigo-as pela sala, agarrando pontuações fugidias e metáforas que escorrem pelos dedos. Até que, exausta, caio no chão. É então que elas voltam, dóceis, e me cobrem como um manto de versos arrependidos. "Escreva-nos outra vez...", pedem, "mas dessa vez, deixe-se levar pelo que não entende!!!".
E eu, obedeço...
Deixo que me levem ao país onde os silêncios têm cor, onde os beijos são feitos de parênteses entrelaçados, e a lua — ahhhhh, a lua — é uma letra "O" gigante pendurada no céu estrelado e perdida no alfabeto do cosmos. Lá, encontro os poetas que nunca morreram: estão todos suspensos em cápsulas de âmbar e absinto, seus corpos transformados em livros abertos onde esvoaçam borboletas. Florbela Espanca tem asas de anjo presas nas costas, Cecília Meireles é um rio de ninfas cantantes, e Fernando Pessoa fuma um cachimbo que solta nuvens com formato de talvez. Eles riem de mim, claro...!!!
"Ainda acreditas que escreves?", perguntam. Antes que eu responda, sopram meu nome no ar, e ele se desfaz em sílabas que voam para formar um novo poema em outra galáxia!!! Na ansia de fugir a essa pergunta sem resposta...
Volto ao teclado. Agora sei: sou apenas um instrumento. Um alaúde desafinado e já gasto que as palavras tocam quando querem relembrar seu próprio eco....
E o amor???? Pergunto eu...
O amor é o maestro invisível, aquele que rege a orquestra de meus delírios com uma batuta feita de ausências. Mesmo assim, insisto. Escrevo até que minhas mãos viram pó de estrelas, até que os dedos se confundem com as teclas, até que meu coração bata no ritmo de um soneto inglês e em cem rimas!!!
Ao amanhecer, descubro que as letras plantaram um jardim no meu peito. Crescem entre as costelas, sobem pela garganta, florescem em meus lábios como um pedido de perdão. E eu, finalmente, entendo: não preciso ser poetisa. Basta ser terra — negra, fértil, aberta — para que as sementes do impossível germinem em mim....
O resto???
O resto é silêncio!!!
Ou seria um ponto final que alguém, em outro universo, está transformando em vírgula????
TilaC

4 Comments
Otília...
ResponderEliminarEscreve muito bem. Não quer publicar os seus contos, a sua poesia, a sua prosa
em livro? Uma escritora e editora tem um blogue no SAPO. Trata-se de uma pessoa
que costuma participar em programas de televisão sobre literatura. O nome dela
é Maria do Rosário Pedreira. Devia contactá-la...
Vou procurar o endereço do blogue dela e já a informo.
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
Otília...
ResponderEliminarOs contactos da escritora e editora MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA são:
1. http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt
2. c.-e.: mrpedreira@sapo.pt
Nota - Tem 225 subscritores.
O resultado da minha pesquisa por "Maria do Rosário Pedreira" em blogs.sapo.pt
foi/é o seguinte:
1. "0 resultados encontrados em títulos de blogs"
2. "1086 resultados encontrados em posts"
3. "528 resultados encontrados em comentários"
Contacte-a e envie-lhe os seus contactos e endereços nas "redes sociais".
Envie-lhe textos dos seus blogues. No SAPO tem três e um está "privado".
Os seus textos merecem ser publicados em papel...
Espero, um dia, ter livros seus na minha biblioteca...
P.S.: Com dedicatórias...
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
GRATIDÃO
EliminarVou ter em conta a sua sugestão, Sr. João
Bommmmm carnaval
Cumprimentos
Otília...
ResponderEliminarO que diz o (seu) coração?
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT