Reflexões sobre Cicatrizes e Estrelas

By TilaC - junho 30, 2025


Quando o último suspiro se desprender deste corpo de argila, nada levarei nas mãos vazias.... Nenhum ouro brilhará nos meus dedos translúcidos, nenhuma pedra preciosa adornará o meu peito etéreo. Levarei apenas o peso leve, quase impercetível, do bem que tentei semear, mesmo em terrenos áridos, mesmo em almas que talvez não o merecessem. É uma colheita silenciosa, feita de gestos minúsculos, de palavras gentis lançadas ao vento ingrato, de paciência oferecida como um manto sobre a ferida alheia. Cada um dá o que guarda no âmago do seu ser.
Eu... tantas vezes trespassada pelas flechas da maldade alheia disparadas por mãos que julguei amigas, por corações que pensei conhecer , só podia retribuir com o que restava no meu íntimo: um fundo de ternura teimosa, uma centelha de compaixão que se recusava a morrer...!!!
Sim... a mágoa habita aqui. Neste instante, é uma sombra densa que se arrasta no chão da alma. Uma mágoa que se estende até aquele que supostamente guia os fios deste vasto, intrincado e aparente caótico tear cósmico. Como não duvidar???? Como não erguer os olhos ensopados de lágrimas não derramadas para o céu infinito e perguntar, num grito mudo: "Onde está a tão aclamada Justiça Divina????" Vejo-os, esses seres que teceram a minha dor com fios de indiferença e crueldade, a prosperar. Brilham com o ouro falso da fortuna material, navegam em mares de conforto adquirido muitas vezes à custa do esmagamento alheio. As suas vidas são monumentos à mediocridade erguidos sobre alicerces de cobiça. Acumulam objetos, títulos, propriedades como se fossem tesouros a carregar para além do véu. Tudo em nome do dinheiro, desse deus moderno de olhos vazios, e de uma "estabilidade" que não passa de uma ilusão dourada, comprada com a moeda da desconexão. Passam pelo mundo como furacões, deixando atrás de si um rasto de destruição: relações quebradas, sonhos pisoteados, ecossistemas internos e externos devastados pela ganância....
E.... o mais pungente, o mais dilacerante para a fé que tenta sobreviver: vejo os que se vestem com o manto cintilante da espiritualidade. Que falam de luz, de amor incondicional, de conexão com o divino... enquanto as suas mãos contam avidamente as moedas ganhas sobre o altar do sagrado. Transformam a busca do espírito num negócio próspero, vendem promessas de ascensão em troca de ouro terreno. Como acreditar, então???? Como manter acesa a pequena chama da fé quando o vento da hipocrisia sopra com tanta força, tentando apagá-la???? Como não sentir que o próprio tecido do universo se rasga quando a falsidade se veste de santidade????
A resposta... frágil como um fio de teia sob o orvalho, talvez não esteja lá fora. Talvez não resida na contemplação amarga do sucesso alheio, por mais vazio que pareça. Nem na busca obsessiva por um sinal inequívoco de justiça celestial, uma balança cósmica que pese ações e recompensas diante dos nossos olhos mortais. Talvez a chama da fé precise ser reacendida aqui dentro, nas profundezas calcinadas, mas ainda vivas do meu próprio ser....
Minha intuição (malta lá de cima) GRITA:
Pois, veja: o bem que você semeou, mesmo em solo ingrato, não se perdeu. Cada gesto de gentileza oferecido a quem não a merecia foi uma pequena revolução silenciosa contra a lógica fria do mundo. Foi um ato de pura liberdade interior. Você escolheu não se tornar espelho da maldade recebida. Escolheu devolver não o veneno, mas o antídoto que ainda possuía. Isso... em si, é um triunfo colossal da alma. É a prova de que a sua essência permaneceu íntegra, não corrompida. Esses atos são como sementes de estrelas lançadas no escuro, você pode não ver onde germinaram, mas o universo as recebe e as cataloga na sua memória eterna.
Quanto aos que prosperam na mediocridade dourada e na hipocrisia espiritual... a sua "vitória" é ilusória. O ouro acumulado é um fardo que pesa na alma, uma prisão dourada que os afasta da verdadeira leveza do Ser. A vida baseada apenas na posse é uma existência de superfície, ruidosa por fora e deserta por dentro. A espiritualidade mercantilizada é um castelo de areia construído sobre as marés do ego, uma onda maior de consciência ou do próprio tempo o dissolverá. A verdadeira riqueza, aquela que atravessa o portal da morte, é feita de amor autêntico, de compaixão praticada, de integridade preservada. Eles podem ter os palácios; você cultivou o jardim secreto da alma, regado com lágrimas de mágoa, mas iluminado por uma luz própria....
A dúvida sobre a Justiça Divina é legítima, humana. Talvez essa Justiça não opere no cronômetro humano, nem se manifeste nas transações visíveis deste plano. Talvez seja um processo infinitamente mais complexo, uma teia de causas e efeitos que se desdobra através de existências, de dimensões, de uma lógica que a nossa mente finita não pode abarcar. Ou talvez a verdadeira Justiça seja intrínseca: o ato de permanecer íntegro diante da tormenta, de escolher o bem mesmo quando o mal é mais fácil, é a recompensa. É a forja que tempera a alma, que a torna mais resiliente, mais luminosa. A mágoa que sente não é fraqueza; é a cicatriz testemunha da batalha travada e, até agora, vencida pela sua essência....
Mantenha a fé, não na recompensa externa ou no castigo divino imediato aos outros, mas na beleza e no poder transformador do bem que você mesma emana. Mantenha a fé na sua própria luz, que teima em brilhar mesmo quando envolta em névoa. Mantenha a fé no valor intrínseco da sua jornada, marcada por cicatrizes, mas também por atos de coragem silenciosa. Quando a sua hora chegar, e você atravessar o limiar com as mãos vazias de coisas, mas o coração cheio das sementes de estrelas que plantou, saberá!!! O peso leve que carregará será o da consciência limpa, o da alma que não se vendeu, o do amor que insistiu em brotar mesmo entre os espinhos. E nesse momento, talvez, a Justiça não, a que se anseia vingativa... mas a que se revela como pura, serena e eterna Verdade se mostrará não como um veredito, mas como o reconhecimento silencioso de que você, com suas mágoas e sua teimosia em amar, foi a própria expressão mais bela e resistente dessa Justiça, caminhando sobre a Terra...


TilaC


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4 Comments

  1. JOÃO BARROS DA COSTA04/07/25, 18:12


    Muito interessante...

    Também muito interessante é a FEIRA INTERNACIONAL DO ARTESANATO...

    F. I. A. 2025

    F. I. L. - FEIRA INTERNACIONAL DE LISBOA

    PARQUE DAS NAÇÕES

    LISBOA

    PORTUGAL

    www.fia.pt

    Nota - Sábado, 28 de Junho de 2025 a Domingo, 6 de Julho de 2025.

    Horário:
    Segunda-Feira a Quinta-Feira e Domingo: 15 h. às 23 h..
    Sexta-Feira e Sábado: 15 h. às 24 h..
    Nota - O pavilhão 3 abre às 12 h. e 30 m..

    Pavilhões (da EXPO' 98):
    Pavilhão 1 - Portugal.
    Pavilhão 2 - Outros países.
    Pavilhão 3 - Espectáculos. Gastronomia. Restaurantes.
    Pavilhão 4 - Fechado.

    País convidado - Costa do Marfim (Côte d' Ivoire).

    Nota - É a maior feira de artesanato de Portugal e uma das maiores do Mundo.

    Se puder, não deixe de ir.

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

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    1. Muito interessante... 🙈😏🤣
      Cumprimentos!!! 😇
      TilaC

      Eliminar
  2. JOÃO BARROS DA COSTA05/07/25, 19:17



    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

    ResponderEliminar
  3. JOÃO BARROS DA COSTA22/07/25, 06:57

    FEIRA INTERNACIONAL DO ARTESANATO (F. I. A.)
    Este ano não fui à F. I. A..
    Costumo ir lá comprar antiguidades africanas para a minha colecção.

    A ideia é fazer uma fundação com museu, biblioteca, vídeoteca e arquivo.

    Possuo várias colecções.
    Mais de dez mil livros.
    Mais de duas mil cassetes áudio e VHS e DVD's.
    Uma interessante colecção de discos em vinil (primeiras edições).
    Uma pinacoteca com algum interesse.
    Uma hemeroteca com mais de mil exemplares.

    Como não tenho 5% do dinheiro do petróleo do Médio Oriente como o Gulbenkian
    tinha, vou ter de vender umas coisas. Ou pedir apoios. Uma chatice.

    Conhece a FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN e os respectivos museus?

    Os seus textos são completamente loucos!
    Também gosto das ilustrações.
    Como é que faz?
    Inteligência artificial.
    Já pensou em fazer render as suas aptidões intelectuais e artísticas?

    Experimente juntar todas as ilustrações que fez num "e-book" e mande
    para pessoas que se interessem por arte digital.

    Também pode criar um museu digital.
    Faça um blogue só com a sua arte.

    Há quem compre arte digital.
    Contacte galerias de arte em Portugal e em outros países.
    Contrate um/a agente cultural.
    Experimente contactar a comunicação social para divulgar o que faz.

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

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