O museu das escolhas....

By TilaC - agosto 31, 2025

Imaginemos...
....por um instante, que cada um de nós não carrega apenas um corpo, mas um universo inteiro e selado sob a pele!!!
Se pudessemos ver para alem da carne e do osso, talvez vissemos que o homem no autocarro, de cabeça inclinada contra o vidro, não observa o transito, mas navega num mar interior tempestuoso, onde os navios da sua esperança naufragaram há poucas horas. A sua quietude não é preguiça, é a sobrecarga de um capitão a tentar salvar os ultimos destroços....
A mulher que ri alto no café, cujo som ecoa como sinos de cristal, talvez guarde na garganta uma sinfonia de adeuses não ditos. Cada gargalhada é uma nota desafinada num concerto de solidão que só ela ouve. O seu sorriso???? Um veu bordado a ouro sobre um retrato rachado!!!
Caminhamos todos nós por ruas de asfalto e luz mas pisamos simultaneamente, geografias intimas e intransitaveis. Uns calçam sapatos de diamante que apertam os dedos até sangrar. Outros arrastam correntes de prata, tão belas a distancia mas tão pesadas ao de perto. E... há quem use uma coroa não de ouro, mas de espinhos entranhados na tempora, um diadema invisivel de batalhas particulares, tão real que lateja com cada batimento do coração....
Ninguém é apenas o que aparenta. Somos todos feiticeiros de nós mesmos, tecendo narrativas para sobreviver. Construmos fachadas luminosas para esconder os poroes alagados da alma. Sussurramos "estou bem" como um feitiço de proteção,um encantamento para afastar a curiosidade alheia que, por vezes, mais do que ajudar... pode ferir!!!
Se por um ato de magia pudessemos espreitar pela fechadura da "casa" alheia, ficariamos pasmos. A casa do outro não é feita de tijolo e cimento, mas de memória e assombração. Há quartos trancados a sete chaves, onde moram em arrependimentos com forma de sombras. Há salas de visitas imaculadas, preparadas para receber quem nunca vem. E.... há jardins secretos, onde florescem os sonhos mais frágeis, que nunca são mostrados com medo de que um olhar indiferente os queime com o seu hálito....!!!
Cada encontro nosso é portanto... o cruzamento de dois cosmos (in)comensuraveis. Dois planetas que gravitam brevemente na mesma orbita, cada um com a sua força gravitacional, as suas crateras, as suas luas de melancolia e os seus sois de alegria extinta.
É por esta razão, pela absoluta e vasta ignorancia que temos da guerra que o outro trava, que a gentileza se torna não um mero costume, mas a mais alta forma de sabedoria e de magia pratica.
Uma palavra aspera, um julgamento precipitado, um olhar de desdem coisas que para nós podem ser apenas um segundo irrelevante do nosso dia podem ser a chave que desarma a fragil extrutura que sustenta o universo do outro. Podem ser o feitiço negro que ele não conseguia contra-atacar. A gota de água que, não por acaso, mas por um peso cósmico preciso, faz transbordar um oceano de dor contida....
Portanto, sejamos poetas da compaixão. Alfaiates de palavras macias. Arquitetos de silêncios acolhedores. Ofereçamos, sem saber, o que o outro precisa: talvez um sorriso que não exija nada em troca, um "estou aqui" mudo, o dom precioso do benefício da duvida.
Porque no grande romance da vida, ninguém é apenas personagem secundaria. Cada um é o herói e o vilão, a vitima e o sobrevivente da sua própria epopeia tragica e gloriosa. E o minimo que podemos fazer, ao cruzar-nos nestas estradas cósmicas, é não atirar pedras ao planeta alheio, que já deve ter, ele próprio, meteoritos suficientes para lidar!!!
Antes, sejamos uma constelação breve de amabilidade no seu céu noturno. Um momento de poesia num dia de prosa dura. Um porto seguro, ainda que por um só instante, nesse oceano vasto e desconhecido que é a vida do outro...
Imaginemos, então... que não somos apenas universos, mas também cartografos perdidos dos nossos próprios territórios interiores. Desenhamos mapas com linhas tremulas, assinalamos os locais onde os dragões da insegurança se aninham, os pantanos da melancolia e os oásis raros de pura e efémera felicidade. Estes mapas são indecifraveis para qualquer outro olhar. A legenda é escrita na linguagem unica e secreta das nossas experiências!!!
Cada pessoa que cruza o nosso caminho é uma destas cartografias animadas, um pergaminho vivo cheio de anotações invisiveis. O colega que chega atrasado não é apenas desorganizado... talvez tenha passado a noite a travar uma batalha silenciosa contra um exercito de preocupações na sua cama. A criança que faz birra no supermercado não é apenas mal-educada... talez o seu pequeno mundo, ainda em formação, esteja a ser sacudido por um terramoto de emoções que ela não consegue nomear!!!
A nossa perceção do outro é como olhar para uma floresta densa do alto de um avião. Vemos a massa verde, aparentemente homogenea, impenetravel. Não vemos o veado ferido a lamber a sua pata numa clareira, a raposa a cuidar das suas crias na toca, a árvore anciã que está a ser consumida por dentro por um fungo silencioso. Julgamos a floresta pela sua aparencia serena, ignorando os milhares de dramas microscopicos e macros que nela se desenrolam....
A fantasia aqui é que todos nós possuímos um objeto magico, uma especie de lente. Uns escolhem a lente da desconfiança, que distorce todos os gestos alheios, transformando-os em ameaças ou falhas. Outros calçam os oculos da pressa, que borram os detalhes, transformando as pessoas em meros obstaculos ou figurantes no seu próprio caminho.
Mas a magia mais rara e preciosa é a de trocar estas lentes por um coração-espelho. Um espelho que, em vez de refletir a nossa própria imagem, tenta com humildade e tremendo esforço, captar a luz do universo alheio. Um espelho que não devolve julgamento, mas sim um clarão de curiosidade genuina. Um "quem serás tu, realmente????" em silêncio!!!
Este coração-espelho não exige que decifremos os segredos uns dos outros. Isso seria uma invasão. Ele apenas nos sussurra: "Lembra-te que há um segredo. Lembra-te que a superfície é só isso: uma superfície...."
A poesia reside exatamente neste ato de reconhecimento da profundidade alheia. É a poesia do "talvez". Talvez o seu silêncio não seja frieza, mas sim o peso esmagador de uma canção que não pode ser cantada. Talvez a sua irritação não seja sobre o café derramado, mas sobre o navio que nunca chegou ao porto. Talvez o seu sorriso demasiado largo seja o arame farpado que protege um campo de ruínas....
Ser gentil, então, torna-se um ato quase sobrenatural. É lançar um feitiço de alivio num mundo cheio de maldições invisiveis. É ser o guardião não da história do outro, que não nos pertence, mas do seu direito de a ter. É oferecer um lugar seguro onde, por um instante, ele possa baixar a guarda e descansar do fardo de ser forte o tempo todo!!!
Não sabemos que feitiços os outros estão a lutar para quebrar. Não sabemos que monstros eles alimentam com as suas proprias mãos. Por isso, a nossa única magia universal, o nosso encantamento mais poderoso, é a graça. A graça de assumir que todos estamos a fazer o nosso melhor com as ferramentas encantadas ou partidas que temos...
No grande baile dos universos que se cruzam, sejamos então não um pé que pisa no outro, mas uma musica que permite que todos respirem, dancem ou apenas chorem, em paz, pelo tempo que a canção durar. Porque no final, somos todos ilhas, mas o oceano que nos separa é o mesmo que nos une...


... o oceano da condição humana, salgado de lágrimas e sonhos, aonde navegamos, cada um no seu barco fragil, sob as mesmas estrelas!!!!


TilaC


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