Era uma vez...
.... uma terra sem nome, onde as estações dançavam conforme o ritmo das lagrimas. Ali,no centro de um vale cercado por montanhas que choravam granizo, vivia uma alma que acreditava ser feita de veu translucido, frágil, incapaz de reter sequer o peso de um suspiro. O vento, naqueles dias antigos, não era apenas vento: era uma lingua afiada que sussurrava historias alheias em seus ouvidos. A chuva não caia, arrastava consigo pedaços de sua historia, lavando-a até que só restasse o esboço de quem um dia pensou ser....
Os primeiros anos foram uma procissão de sombras. Ela abria as janelas de seu castelo interior para qualquer viajante, fossem eles mensageiros de tempestades ou cantores de versos vazios. Suas paredes, então, eram feitas de perguntas não respondidas, e o chão, um mosaico de "talvez" e "quem sabe"...!!! Até os lobos da desordem circulavam livremente por seus salões, lambendo os restos de sua calma como se fosse mel.
Mas um inverno chegou com uma furia diferente. Não trouxe neve, mas espelhos.E neles, a alma viu-se refletida não como véu, mas como um rio subterraneo, profundo, escuro, carregando em suas correntes todas as pedras que um dia engoliu para não ferir os outros. Foi então que a primeira muralha nasceu: não de pedra ou ferro, mas de silêncio...
O silêncio, descobriu ela, era uma criatura mistica. Tinha asas de coruja e olhos que brilhavam no escuro. Aprendeu a invocá-lo quando as palavras do mundo se transformavam em flechas. Enquanto os outros gritavam, o silêncio tecia uma armadura de orvalho ao redor de seu coração, fria ao toque, mas viva por dentro...!!!
Não foi facil. Houve revoltas nos arredores de seu reino interior. Algumas vozes, acostumadas a ecoar sem resposta, bateram em seus portões com furia de trovões. "Egoista!!!!", gritavam. "Fria!!!!" acusavam. Ela, porém, começou a erguer pontes levadiças feitas de ausência. Descobriu que não responder também é uma resposta, uma que ressoa mais alto que qualquer berro!!!
Com o tempo, a terra arida em volta de seu castelo começou a florescer de modo estranho. Das rachaduras onde antes caiam lagrimas, brotaram flores de vidro frágeis na aparência, mas capazes de cortar quem as agarra sem cuidado. O caos externo, agora, não mais entrava a cavalo, disposto a saquear. Era obrigado a parar diante de um fosso cheio de nevoa e mistérios.
Aos poucos, a alma aprendeu a arte da seleção. Não era mais uma anfitriã desesperada, mas uma guardiã de portais. Para alguns, oferecia chá em xicaras de porcelana fina, herdadas de ancestrais que também sabiam o valor da quietude. Para outros, apenas apontava a direção da saida, sem explicações. Aprendeu que a generosidade não está em dar tudo, mas em proteger o que é sagrado: o tempo, a paz, os fragmentos de luz recolhidos após décadas de tempestades...
Num crepusculo qualquer, enquanto observava o pôr do sol pintando as nuvens de purpura, ela encontrou uma criatura curiosa á sua porta. Era uma fênix pequena, com penas feitas de pergaminho queimado. Trazia na boca uma carta antiga, escrita em tinta invisivel. "São as palavas que você nunca disse...", sussurrou a ave. "Elas não morreram. Transformaram-se em cinzas que agora podem fertilizar novos começos!!!"
A alma sorriu, pela primeira vez sem amargura. Aceitou a carta e plantou-a no jardim secreto que mantinha atrás da terceira muralha, um lugar onde só entravam melodias de flautas distantes e o cheiro de livros abertos pela primeira vez. No dia seguinte, no lugar da semente de silêncio, havia nascido uma arvore cujas folhas sussurravam poemas em linguas esquecidas.
Agora, quando as tempestades ameaçam seu reino, ela não se enche de medo. Sobe até a torre mais alta, onde vive um dragão de quartzo que tece escudos com seu próprio halito. Observa os relâmpagos lá embaixo, rugindo como bestas famintas, e lembra: "Vocês não são mais fortes que a quietude. Não podem entrar sem minha permissão..."
As vezes, é claro, a solidão bate á sua porta. Não a nega. Convidada a entrar, a solidão transforma-se em uma fiandeira de historias não contadas, urdindo tramas que só fazem sentido na penumbra. Outras vezes, a saudade escala as muralhas, tentando roubar um pouco de sua calma. Mas até ela, no fim, acaba por adormecer no colo da aceitação....
Hoje, a alma sabe que sua fortaleza não é perfeita. Tem rachaduras por onde escapam, vez ou outra, risos antigos ou lamentos que não foram curados. Mas essas fissuras não são falhas: são passagens secretas para que a luz da lua entre e ilumine os salões vazios!!!
E... quando alguém pergunta por que ela construiu tantas muralhas, a resposta vem como um eco de estrelas:
— Não é por medo de amar ou de viver. É porque descobri que até a luz precisa de sombra para ser vista. E eu... eu lutei demais para me tornar visível....!!!
Assim, a antiga terra sem nome transformou-se em uma lenda, uma cidadela onde silêncio e palavras dançam em equilibrio, vigiadas por dragões de quartzo e flores de vidro. E aquela alma, outrora feita de véu, agora entende: a verdadeira força não está em resistir a todas as batalhas, mas em escolher quais merecem ser travadas....
Afinal, até os deuses precisam descansar!!!
TilaC

3 Comments
Otília...
ResponderEliminar1. Quais são as suas influências literárias e livros preferidos?
2. Quais são os seus filmes preferidos?
P.S.: Quem é que inventou a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL?
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
Era uma vez...
ResponderEliminar... uma menina que tinha nascido de uma gota de orvalho.
Essa menina era filha do Frio e da Madrugada.
Cresceu numa pétala de uma rosa encarnada, num jardim de ventania.
Um dia decidiu conhecer o que via para além do Espaço.
Escolheu a Porta da Glória e foi em busca do Conhecimento.
Andou por muitas galáxias.
Esteve em muitos planetas.
Até entrou em buracos negros.
A sua vitalidade estava reforçada.
Um dia decidiu voltar ao jardim que a viu crescer.
Quando lá chegou viu que o jardim já não existia.
No seu lugar estava o Nada.
Ela olhou e não gostou.
"E agora?" - pensou ela.
Decidiu ir à Luta e punir quem a tinha prejudicado.
Afinal era o seu jardim.
"Luta! Sabes quem destruiu o meu jardim?"
"Sei." - disse a Luta.
"Diz-me quem foi." - pediu ela.
NOTA - Continue esta história. SEM "CHAT GPT" E "INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL"...
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
TilaC...
ResponderEliminarJoão Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT