O Tejo... 😍

By TilaC - fevereiro 07, 2026

O Tejo não corre, ele impõe-se...
Esta verdade sussurra-se nas pedras lisas das margens, nos salgueiros que se inclinam em reverência perpétua, na névoa que sobe das águas ao amanhecer como a alma antiga do vale. Ele não é um rio, mas uma presença. Um soberano de águas verdes e prateadas que traça o seu caminho não por acidente geológico, mas por direito ancestral. Observo-o ao crepúsculo, quando o sol se afoga no horizonte ocidental e tinge a corrente de mel e ferrugem. As águas movem-se com uma lentidão deliberada, carregando não apenas a água das chuvas distantes, mas o peso de séculos, de segredos, de olhares....
Quando o céu desaba em tempestade, algo primordial desperta!!!
A placidez majestosa transforma-se em fúria criadora. As águas incham, tornam-se gélidas, espumantes, e o leito conhecido alarga-se, avança, reclama o que sempre foi seu. As árvores curvam-se. As aves calam-se...
A terra, essa esponja silenciosa, aceita a inundação. E nós... Bem, nós com nossos muros de betão e nossas certezas frágeis, lembramo-nos, num calafrio coletivo, que a terra é o seu leito e nós somos apenas hóspedes. Hóspedes temporarios, que construimos a beira do abismo, confundindo a paciência do gigante com a sua submissão. A tempestade é a sua voz. A enchente, o seu gesto de demarcação. Vemos nossos caminhos submersos, nossos jardins devorados, e naquele momento de perda, compreendemos uma verdade humilhante e bela: pertencemos a um mundo maior, mais antigo e indomável...!!!
Contra a força da corrente, não tem resistência que vença a vontade dos elementos. Podemos desviar, canalizar, tentar domesticar um braço, um trecho. Mas o coração do tejo permanece selvagem. Ele arrasta consigo ramos quebrados, folhas mortas, memórias de montanhas. Arrasta também os nossos sonhos mais leves.... aqueles que depositamos na sua superfície como barcos de papel. Eles partem, girando em redemoinhos súbitos, e desaparecem na curva do horizonte, rumo a um oceano que é o seu destino e o seu regresso. A corrente é o seu pensamento incessante. É a narrativa fluida que conta a história da peninsula,desde as neves onde nasce até o abraço salgado. E nessa narrativa, somos uma frase breve, um adjetivo modesto!!
Resta-nos a humildade de aceitar a sua soberania...
...humildade de sentar na margem, com os pés descalços na água fria, e sentir o puxão suave e implacavel da maré. Humildade de ouvir. Porque o Tejo fala. Fala no estremecer das canas,no golpe da truta contra a superficie, no som grave das pedras roladas no fundo. Fala de reis que passaram em naus de madeira, de pescadores que leram o seu humor no céu, de amantes que trocaram promessas a sua sombra....
Todas as suas vozes foram absorvidas, dissolvidas no murmurio aquático. O rio é o grande arquivo do esquecimento, e a sua água é tinta invisível onde todas as histórias, por fim, se reescrevem como uma só: a história do fluxo!!!
O Tejo transborda!!!
A corrente arrasta....
E nestes atos, tão simples e tão grandiosos, reside uma lição profunda. Há forças que nasceram para serem livres e imparáveis. Não a liberdade irrefletida da destruição, mas a liberdade soberana do SER. O Tejo É!!!
Existe com a plenitude de um deus antigo que não precisa de adoração, apenas de espaço para respirar. E nós...
Bem, nós aprendemos... ou devíamos aprender, a dançar com essa respiração!!! A construir não contra, mas "com". A amar não a posse, mas a presença....
Nesta noite, sob um manto de estrelas frias, imagino o rio como um dragão adormecido, cujo dorso escamoso são as ondulações a luz da lua. As suas veias são os afluentes secretos. O seu sopro, a neblina da manhã. E o seu sonho????
O seu sonho é molhar as raízes dos mundos, carregar sementes para terras desconhecidas, cantar uma canção sem palavras que os poetas, há milénios, tentam em vão traduzir...
Há uma tristeza doce nisto. A tristeza do efêmero contemplando o eterno. Saber que os meus passos na margem se apagarão, que o meu olhar se perderá, mas que este fluxo continuará, indiferente e magnifico. Que ele testemunhará outras tempestades, outras cheias, outros hóspedes a beira da água. A nossa vida é um suspiro entre duas das suas ondas....
Mas que privilégio, nesse breve instante, poder testemunhar a sua majestade, sentir o seu poder, e aprender, na pele e na alma, a lição mais difícil e mais libertadora: a de que fazemos parte de um TODO que nos ultrapassa, e que há uma beleza profunda e melancólica em render-nos a essa corrente, deixando que ela nos leve, suavemente, para além de nós mesmos...
O Tejo não corre.... Ele impõe-se!!!
E na quietude da sua passagem inexorável, ele oferece o unico consolo verdadeiro: a certeza de que há, neste mundo, algo maior do que o nosso medo, mais forte do que a nossa arrogância, e mais livre do que qualquer desejo humano.
Ele é!!!
E porque ele é, nós também podemos ser.... pequenos, talvez, mas maravilhados, e por um momento, tocados pela mesma força antiga que esculpe montanhas e acaricia as margens, na eterna e poética viagem em direção ao mar!!!

TilaC

Imagem criada por Nano Banana-Gemini

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2 Comments

  1. Os espanhóis submeteram o Tejo com as suas barragens.
    E quando o Tejo se solta...
    Lembro a mortandade de uma noite de chuva, com mais de 500 mortos na Grande Lisboa.

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    1. Caro Sr. João, agradeço o seu comentário, mas para bem da verdade histórica e científica, precisamos de separar os mitos da realidade.
      Culpar os nossos vizinhos espanhóis pelas cheias de 1967 é um erro geográfico crasso. Naquela noite trágica, o problema não foi o caudal que veio 'lá de cima' pelo Rio Tejo. O que aconteceu foi um fenómeno de precipitação extrema localizada... choveu em Lisboa e arredores, em poucas horas, o que era suposto chover num mês!!!
      As vítimas não foram levadas pelo Tejo, mas sim pelas ribeiras de Odivelas, Loures e Alcântara, que nascem em solo português. Além disso, convém recordar que em 1967 as grandes barragens espanholas (como Alcántara) nem sequer estavam concluídas. Culpar Espanha por este evento é como culpar o vizinho de cima por um cano que rebentou na nossa própria cozinha...
      A Natureza não obedece a fronteiras e... perante a força da água e o ordenamento do território precário da época, a arrogância humana é o que menos ajuda a compreender os factos. Fica a clarificação técnica para que não se perpetuem informações erradas no meu blog... E se formos analisar a situação atual de Portugal e Espanha a difernça NÃO é muita, ambos os paises com agua por os "colh..." UMBIGO😅🙈 e ambos os países a lutar para não se afogarem com TANTA agua !!! Sejamos mais empáticos, grata desde ja...

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