Há noites que chegam sem aviso, vestidas de um azul tão profundo que mais parecem oceanos esquecidos dentro do peito. O silêncio deixa de ser ausência e ganha corpo: torna-se uma presença densa, quase palpável, que se senta ao nosso lado na cama e respira devagar, como se também tivesse medo de acordar o que dorme. Nesses momentos, tudo o que foi vivido se acumula nas pálpebras... e o tempo, esse artesão caprichoso, parece ter deixado o relógio virado para a parede. Mas mesmo aí, no centro exato dessa escuridão tão vasta, existe algo que não se rende. Dentro de nós, no lugar onde as palavras ainda não têm nome, mora uma pequena chama. Ela não grita, não exige, não promete mundos... apenas permanece.!!! Às vezes, ela é tão discreta que a confundimos com uma lembrança antiga, um verso esquecido, o calor de um abraço que já foi. Mas se prestarmos atenção, ouviremos seu estalo suave, como um coração que bate debaixo das cinzas, recusando-se a ser inverno para sempre....
Pensa nos dias nublados da alma. Aqueles em que o horizonte perde o contorno e a estrada se transforma numa pergunta sem resposta. Avançamos tateando, as mãos encontrando mais neblina do que chão, e mesmo assim seguimos. Há uma beleza secreta nesse gesto que não é visto por ninguém, uma coragem que não cabe em medalhas: continuar andando quando a bússola enlouqueceu e os mapas se apagaram. É como dançar com os olhos vendados numa sala vazia mas, de repente, nossos pés descobrem que a música nunca deixou de tocar. Ela estava ali, guardada nas frestas do assoalho, esperando que a confiança voltasse a pisar com graça. Nesse caminho incerto, onde os dias se arrastam como nuvens grávidas de chuva, aprendi uma história. Conta-se que, muito antes de existirem as palavras, havia um jardim suspenso no vento. Nesse jardim, as flores não nasciam da terra: brotavam dos suspiros dos viajantes solitários. Cada pétala era um sonho que alguém ousou sonhar mesmo quando tudo dizia não. As cores mudavam conforme a esperança de quem suspirava: azul-íris para os que esperavam o amor, dourado-parado para os que buscavam paz, violeta-profundo para os que carregavam perguntas. E havia uma flor rara, pequenina, quase invisível, que só desabrochava quando alguém, no auge da noite mais longa, sussurrava: “Ainda não”. Diz a lenda que essa flor, a mais frágil de todas, tinha o poder de encurtar o inverno do mundo...
Talvez a esperança seja exatamente isso: um “ainda não” !!! sussurrado à beira do abismo. Não é a certeza barulhenta, mas a chama miúda que guarda as formas do que ainda não nasceu. E talvez, só talvez, a cada vez que acreditamos que algo bonito nos espera depois da curva, estejamos plantando essa flor no jardim invisível que carregamos. Porque o coração aberto é terra fértil, mesmo quando parece deserto. Lembro de uma noite em que a solidão parecia um manto de estrelas apagadas. Caminhava por uma rua de paralelepípedos que a lua tinha esquecido de iluminar. O frio não estava lá fora, mas aqui, nesse espaço entre as costelas onde as despedidas fazem morada. E nessa rua, entre névoa e memória, surgiu uma figura. Não era bem uma pessoa, mas um contorno de luz amorenada, como se o entardecer tivesse tomado forma humana. Tinha olhos cor de mel antigo e usava um casaco feito de vento. Ele ou ela, ou isso, pois o amor pelo mistério não tem gênero, estendeu a mão sem pressa. “Vem”, disse, com uma voz que lembrava folhas secas dançando. “Deixa eu te mostrar o que acontece quando a gente não desiste.”
Sem saber se era sonho ou delírio, segui. O estranho ser caminhava e, a cada passo, o chão se iluminava com delicadeza. Sob nossos pés, brotavam margaridas luminescentes que cantarolavam baixinho canções de embalar feridas. “São as lágrimas que você nunca deixou cair”, explicou. “A terra da alma guarda tudo, e um dia transforma em luz.” Subitamente, uma escada de raízes surgiu diante de nós, subindo em direção a um céu que não se via. Começamos a subir, e o ar foi ficando mais perfumado, com cheiro de jasmim e de manhã depois da chuva. No topo, encontramos um enorme relógio de água. Seus ponteiros eram feitos de líquido prateado, que escorria eternamente sem pressa de marcar horas. “O tempo que parece demorar”, disse a figura de luz, “é o mesmo que coloca cada coisa em seu lugar. Olha.” Toquei a superfície do relógio e vi cenas flutuando. Vi um coração partido sendo lentamente remendado por mãos invisíveis, linha por linha, com fios de luar. Vi um medo antigo se desfazendo como açúcar na chuva. Vi um amor que parecia impossível começando a brotar num terreno antes coberto de neve. E percebi que,... enquanto eu me angustiava lá embaixo, aqui em cima tudo já estava sendo bordado com paciência divina...!!!
Foi então que a figura apontou para uma curva logo adiante, onde uma cortina de neblina cintilante escondia o caminho. “Ali, depois dessa curva, existe algo que você nem imagina. Mas não posso te mostrar. Só posso te dizer que é bonito. Bonito como a primeira estrela da noite, como a chuva que cai mansa no telhado enquanto dois corpos se enroscam, como o abraço que chega quando a força já tinha ido embora.” Lágrimas quentes rolaram pelo meu rosto, e cada lágrima, ao tocar o chão do relógio de água, virou um vagalume. Os vaga-lumes formaram um caminho de volta, descendo as escadas de raiz, iluminando a rua escura lá embaixo. Entendi, enfim... que as melhores histórias não começam quando tudo está resolvido. Elas começam no instante em que olhamos para o vazio e, em vez de desistir, plantamos uma semente de “talvez”. Talvez exista amor depois dessa dor. Talvez a calma more nessa casa que ainda não visitei. Talvez o reencontro esteja sendo preparado em silêncio, enquanto o destino mistura os ingredientes certos. Talvez o sonho que guardei na gaveta ainda tenha asas. Talvez a primavera não seja uma estação, mas uma decisão íntima de florescer apesar da geada.
E o romantismo? Ahhhh, o romantismo mora nessa coragem de continuar sentindo. De se permitir o arrepio diante de um pôr do sol mesmo depois de tantas noites longas. De escrever cartas que nunca serão enviadas, regar plantas que ainda não nasceram e guardar o perfume de alguém na memória do travesseiro. É abrir a janela da alma e deixar o vento bagunçar os medos, porque no fundo sabemos que a desordem também é sagrada. O amor, seja por outra pessoa, por um lugar, por um futuro que ainda não tem nome, é essa chama que não se apaga mesmo quando nos esquecemos de alimentá-la, ela encontra sustento nos recantos mais improváveis, como o musgo que insiste em crescer nas pedras frias.
E a fantasia? A fantasia é o véu que nos permite ver além. É acreditar que cada esquina pode esconder um portal. Que o vento às vezes traz mensagens dos que já partiram. Que o coração, quando bate descompassado, está a dialogar com o universo numa língua que as estrelas conhecem. É saber que, dentro de nós, habita um pequeno sol que nenhum eclipse pode apagar. Quando a noite parecer longa demais, é só fechar os olhos e imaginar que somos um farol no meio da tempestade, girando, girando, lançando fachos de luz sobre as ondas escuras, guiando navios que ainda não vemos e entre eles, talvez esteja aquele que traz nosso nome escrito na vela.
Porque nenhum inverno dura para sempre. As feridas encontram descanso quando menos esperamos, às vezes sob a forma de uma conversa inesperada, de um café que alguém preparou com carinho, de uma música que tocou na hora certa. Os medos perdem espaço quando descobrimos que somos maiores do que eles, que nosso peito é um salão imenso onde o medo é apenas uma sombra no canto e a chama, no centro, dança valsa com a esperança. E aquilo que parecia impossível começa a florescer diante dos nossos olhos, como uma trepadeira que, silenciosa, cobriu o muro cinza com flores roxas durante a madrugada. Então, se hoje a noite parecer longa demais e o silêncio pesar sobre os teus pensamentos, lembra-te do jardim suspenso no vento, do relógio de água, da figura de luz com casaco de vento. Lembra-te de que os teus passos, mesmo trôpegos, estão plantando margaridas luminescentes no chão invisível do mundo. Respira fundo. Não precisas ver o destino inteiro. Basta acreditar que, depois da curva, algo bonito está à tua espera. Pode ser um amor. Pode ser a paz. Pode ser uma versão tua que já não carrega o peso de ontem. Mas existe. Existe, e a chama dentro de ti sabe disso, porque nunca, em momento algum, se apagou. Apenas esperava que os teus olhos se acostumassem com a escuridão para que pudesses enxergar, pela primeira vez, a imensidão da TUA própria luz...!!!
TilaC -- Aurora
P.S : AMOOOO A PALAVRA VAGA-LUME 👅
Até sempre SAPO 🤣🤣🤣Nada é eterno para além da eternidade 😎 assim como este blogg...TUDO o que semeamos colhemos, assim e a LEI do universo 🌞

4 Comments
Gostava de seguir o vosso trabalho no blix.pt. Já tem blogue por lá?
ResponderEliminarUma boa tarde para si... 😊🙏
EliminarNão... não tenho nada em vista no blix.pt, e apesar de ja ter guardado o meu "Despertar D`Aurora" aqui no meu pc, confesso que ainda não escolhi a sua nova morada neste mundo virtual, MAS o que aqui partilhei não vai perecer perante o término do site da Sapo... Um grande bem-haja e gratidão pelo seu comentário!!!
TilaC
Olá querida Tilac, tanto tempo sem saber de ti, espero estejas bem. Pensei que não estavas numa conexão de chamas gêmeas, mas o teu texto indica o contrario e não perdeste o jeito de escrever bonito! Eu também tive um tempo que duvidei da conexão, apesar de nunca ter una confirmação direta, agora estou numa fase que me sinto exausto deste mundo, já não espero nada de ninguém, é evidente que a minha zona de conforto é uma mer..., pois estou a viver uma vida que não quero, com responsabilidades que não são só minhas, mas sou obrigado a dar conta de tudo sozinho, a morar num sitio que detesto, as vezes tenho vontade de sair correndo e parar só no estremo sul do pais, não sou feliz e nem estou na paz, coisas da alma! Em quase 5 anos ainda sinto a energia da minha chama, mesmo distantes e no silencio, mas desejando sempre que nossas mãos se toquem algum dia, já não é perseguição, alias a ultima vez que fui perto dela, fiquei avariado em Vila Verde, com certeza não era o momento certo. O teu texto tem muitas coisas que também penso, aquelas mãozinhas que quase se tocam diz tudo. Desculpa o desabafo. Um feliz dia querida Aurora.
ResponderEliminarUma boa tarde Don João... 😊🙏
EliminarRespondendo ao seu comentário de forma honesta e transparente : Sim... continuo numa dinâmica de chama gémea e com a certeza absoluta que de facto foi algo que vivenciei com esse ser... MASSSSS dando o exemplo aqui do site da SAPO, nem sempre os nossos desejos/planos ou seja o que for acaba da forma como gostaríamos!!! 😅🙈E acabamos por nos render aos caprichos do universo. Ele acabou por ir pra NORTE e eu devido a minha profissão fui para o SUL, mesmoooo a sul deste belo país a beira mar plantado 🤪e como AMO o mar, tem sido super fácil de amar o meu sul... Quanto a escrever, é algo que faz parte de mim, da minha alma de poeta que jamais deixará de navegar entre palavras mesmo e apesar de por vezes nao as soltar ao vento!!! 🥰
Gratidão e um bem-haja
TilaC (Aurora)