Desculpa se te escrevo de novo, mas é que palavras têm vida própria, e as minhas ainda insistem em te procurar. Eu tentei silenciá-las, mas elas escorrem pelos meus dedos, inundam meus pensamentos, transformam minha despedida em um eterno retorno. Talvez seja isso que somos, afinal: um ciclo interminável, uma chama que nunca se apaga por completo, mesmo debaixo de um vendaval.
Penso em nós como uma história contada em duas línguas diferentes. Você falava com gestos contidos, com silêncios que diziam mais do que qualquer palavra. Eu falava com o coração escancarado, com a alma em carne viva. E... no meio dessa confusão, acabamos criando um dialeto próprio. Um idioma só nosso, cheio de olhares, promessas de toques e tambem promessas que nunca soubemos cumprir.
Lembro-me das vezes em que você criava universos onde cabíamos por um instante. Cada um desses momentos parecia uma cena roubada de um filme que nunca foi lançado. Havia luz demais, cor demais, amor demaissss. Massss, como toda fantasia, aquilo era frágil. Eu sabia que, a qualquer momento, você desapareceria de novo, como se a própria realidade te puxasse de volta para longe de mim. E eu, boba que sou, sempre ficava. Sempre acreditava que, da próxima vez, você não partiria...!!!!
A verdade, porém, é que você nunca ficou de verdade. Não porque não queria, mas porque não sabia como. Você me queria ao seu lado, sim, mas tinha medo de me deixar entrar na sua vida. E eu???? Eu fui abrindo portas, janelas, fendas em mim mesma, na esperança de que você entrasse. Eu me tornei transparente para que você pudesse ver o quanto eu te amava. E... ironicamente, foi na minha transparência que você se perdeu. Porque, no fundo, você não estava procurando alguém para ficar; você estava apenas procurando um lugar para escapar... De si mesmo!!!
É estranho pensar que duas pessoas que morreram de amor uma pela outra não conseguiram viver juntas. Parece um paradoxo, mas talvez seja isso que o amor seja: algo tão grande que às vezes nos ultrapassa. Nosso amor era como uma tempestade — intenso, avassalador, mas incapaz de encontrar descanso. E eu... não sabia como te dar abrigo, porque você não queria um. Você queria o vento, o movimento, a sensação de estar sempre indo a algum lugar que nem você sabia qual era!!!A liberdade...
Eu te transformei no meu sonho. Não um sonho qualquer, mas aquele que a gente não quer acordar, mesmo quando o despertador toca insistentemente. Você era meu paraíso particular, minha fuga da realidade, meu pedaço de eternidade. Mas o problema de sonhar é que, cedo ou tarde, a gente acorda. E... quando eu acordei, percebi que você nunca esteve lá nem tão pouco cá. Ou melhor, esteve, mas só como uma sombra, um reflexo fugaz de algo que nunca foi concreto.
Agora, tudo o que me resta são memórias. Mas até elas são traiçoeiras, porque não sei mais distinguir o que foi real do que eu inventei para suportar tua ausência. Foram tantos beijos, tantos toques,não dados, tantas promessas sussurradas ao pé do ouvido da minha imaginação. Mas também foram tantos vazios, tantas noites sozinha, tantos gritos abafados pelo silêncio. Você era tudo, e você era nada...!!! E... de algum jeito, isso ainda dói.
Eu queria poder dizer que te desejo felicidade. Queria mesmo. de forma real e sincera...
Mas para sermos felizes, precisaríamos estar juntos. Precisaríamos acordar lado a lado, ver o sol nascer sem medo de que o dia nos separasse. Mas isso nunca vai acontecer. Estamos presos em mundos paralelos, condenados a vagar por outras vidas, tu em outros amores,mas carregando o peso de tudo o que poderíamos ter sido e nunca fomos!!! Então nada me resta que desejar-te felicidade de forma genuina e sincera, mesmo e quando a minha alma se rebela quanto a isso...
Somos fantasmas, meu amor....
Espectros que se encontram nos sonhos e se perdem na vigília. Você vai continuar a criar suas ausências, e eu, a te procurar em cada sorriso, cada olhar, cada fragmento de mundo que me pareça um pouco com você. Talvez seja isso que signifique amar alguém como eu te amei e AMO: aceitar que o amor, às vezes, é apenas um lugar onde não se pode ficar!!!
Adeus, mais uma vez. Mas saiba que, mesmo no adeus, você continua aqui, na parte de mim que não sabe desistir. Porque o amor, mesmo o que dói, tem raízes profundas. Ele nunca se vai por completo.
E... talvez essa seja a MINHA tragédia!!!!
Aurora (TilaC)

2 Comments
Otília...
ResponderEliminarOs seus textos decorrem da sua imaginação ou são biográficos?
Seja como for, estão muito bem escritos.
Dê-se a conhecer.
Perfil?
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
Eu não lhe chamaria imaginação... 😇
EliminarÉ mais para o lado da loucura mesmo!!! ( desculpe a brincadeira)
Grata 🙏