Espelhos... 🙌

By TilaC - fevereiro 23, 2025

Há noites em que a lua prateada desenha mapas sobre a pele, traçando rotas de sonhos que nunca ousamos nomear. São nessas horas, entre o crepúsculo e o primeiro suspiro da madrugada, que a vida se revela como um baú de segredos meio abertos: alguns brilham como joias esquecidas, outros ardem como cartas nunca enviadas. E... é ali, nesse limiar entre o que foi e o que poderia ter sido, que a frase ecoa como um mantra antigo: "Da vida não quero muito..."
Quero, sim, ter caminhado por florestas de perguntas sem resposta, onde as árvores sussurram enigmas em línguas mortas e os rios correm em direção ao mar apenas para dissolverem-se em lágrimas salgadas. Tentei tudo o que quis — não por ambição, mas por sede. Sede de ver o invisível: o instante em que as estrelas desistem de ser luz e se tornam cinzas, o momento em que um beijo não é mais um encontro de lábios, mas uma colisão de universos. Subi montanhas que não existem em mapas, escalei nuvens tecidas de melancolia e, no topo, descobri que o céu é apenas um espelho quebrado refletindo nossos próprios vazios....
Tive tudo o que pude — mas o que é ter, senão segurar a areia entre os dedos enquanto o vento a rouba, grão por grão???? Possuí jardins de orquídeas noturnas que floresciam apenas para mim, enchi os bolsos de conchas que guardavam o rumor de oceanos distantes, e até mesmo dancei com fantasmas em salões de espelhos, onde cada reflexo era uma versão de mim que desisti de ser. Tudo isso foi meu, mas como a luz que habita brevemente as asas das libélulas, tudo era empréstimo. A vida não nos dá; apenas nos empresta suas joias, sabendo que um dia as pedras preciosas se tornarão pó, e o ouro, uma memória oxidada!!!!
Amei....
Ahhhhh, amei como quem escreve uma carta com tinta invisível, sabendo que nenhum olhar a decifrará. Amores foram como estações: alguns, primaveras explosivas de jasmim e promessas; outros, invernos silenciosos onde o afeto era apenas o calor de duas mãos se buscando no escuro. Amei até o que doía — porque até a dor, quando genuína, tem a pureza de um diamante não lapidado. E quando perdia, lembrava que as coisas que partem nunca foram nossas; eram como pássaros que pousaram em nosso ombro por um instante, não para nos pertencer, mas para nos ensinar o peso leve da liberdade.
Perdi....
Mas as perdas eram sempre miragens dissipadas: castelos de areia engolidos pela maré, amores que eram só ecos de vozes alheias, caminhos que se fechavam não por crueldade, mas porque seu destino era ser apenas uma curva no mapa, não o destino. E nessa dança de ganhos e desapegos, entendi que a vida não é uma coleção de certezas, mas um mosaico de fragmentos — alguns cintilantes, outros opacos —, todos unidos pela cola frágil do "talvez"...
Agora... quando o crepúsculo volta a pintar o céu de tons de saudade, sento-me à beira do rio do tempo e observo as folhas caírem. Cada uma carrega um nome, um desejo, um arrependimento. Deixo que a corrente as leve, sem resistência. Porque sei, finalmente, que viver não é reter, mas deixar-se inundar pela correnteza, confiando que as águas sabem para onde fluir. E se um dia me perguntarem o que colhi dessa jornada, direi apenas que tentei navegar pelos labirintos do possível, amei as sombras tanto quanto a luz, e aceitei que as verdadeiras perdas são só aquelas que jamais existiram — fantasmas de um eu que não teve coragem de voar!
Assim, entre riscos e rasuras, escrevo minha epopeia imperfeita. E mesmo que ninguém a leia... ela estará completa, porque a vida não exige plateia. Exige apenas que a vivamos, entre o sonho e o despertar, entre o ter e o deixar ir, entre a ânsia e a paz de quem sabe que, no fim, tudo o que foi verdadeiro jamais se perderá.
Porque o que é nosso não precisa ser possuído.
Basta ter brilhado, uma vez, na palma aberta da existência.
Há um lugar entre o adeus e o esquecimento onde os relógios desistem de marcar as horas — é ali que me encontro agora, envolto na névoa diáfana do que restou. O vento, outrora mensageiro de aventuras, agora traz apenas o cheiro de chá frio e páginas amarrotadas de diários que nunca terminei. As estrelas, tão brincalhonas em noites passadas, hoje são faróis apagados, lembrando-me que até a luz tem seu luto.
Continuo a colecionar instantes, mas já não os guardo em cofres; deixo que se espalhem como pétalas murchas sobre o lago da memória. Tentei tudo o que quis, sim, mas quantos desses desejos eram apenas fugas disfarçadas de coragem? Quantas vezes confundi a ânsia de viver com o medo de parar? As florestas de perguntas sem resposta agora são bosques de silêncio, onde até os ecos se cansam de repetir o que não foi dito. As montanhas que escalava eram feitas de meus próprios ossos, e o céu espelho, ao quebrar-se, levou consigo pedaços do meu rosto....
Ter foi um verbo que aprendi a conjugar no passado. Os jardins de orquídeas noturnas murcharam, deixando apenas um rastro de pólen dourado que o tempo varreu. As conchas dos bolsos agora são cápsulas vazias, sussurrando histórias de mares que secaram. E os fantasmas com quem dancei???? Partiram sem deixar bilhetes, levando consigo os espelhos onde eu me refazia. Restaram só sombras na parede, contorcendo-se em formas que já não reconheço. Às vezes, penso que possuir é uma língua extinta, e eu, a último falante, murmro suas palavras para ouvidos de pedra.
Amar, ahhhh, amar....
Foi como tecer mantos com fios de chuva: belos até que o sol os desfaz. Lembro dos amores que foram luas cheias, iluminando noites inteiras com sua generosidade redonda. E dos que foram luas minguantes, deixando-me na escuridão com o gosto amargo de "quase". Amores que eram canções de ninar entoadas em línguas esquecidas, melodias que ainda hoje assombram meus ouvidos em noites de insonia. Perdi alguns, sim... mas como perder o que já vinha emprestado? Eles foram como a brisa que entra pela janela aberta: refrescam o quarto, mas não pedem licença para ir embora!!!
Agora... as perdas têm um brilho diferente. São como conchas vazias na praia — não machucam, mas cortam suavemente os pés descalços da alma. Perdi o que nunca foi meu, é verdade, mas quantas noites passei inventando donos para o que era só passagem? Castelos de areia, vozes ao telefone, promessas feitas sob estrelas cadentes... Tudo era efêmero, mas insisti em construir altares para o transitório. Hoje, cultivo cactos no deserto dessas ruínas — plantas que sabem viver de quase nada, como eu.
Nostalgia é um vinho que se bebe devagar. Deixo que ela me visite ao entardecer, quando o sol se põe não como um adeus, mas como um suspiro. Revisito cartas que nunca enviei, abraço fantasmas que não resisto a evocar, e permito que as lágrimas escorram sem pressa — são pérolas líquidas, restos de um oceano que já não me pertence. Até a tristeza, quando delicada, tem sua doçura. É como a chuva fina que umedece a terra sem inundá-la: não nasce para destruir, mas para limpar feridas antigas.
E assim, entre o "foi" e o "será", descubro que a vida não é uma linha reta, mas um círculo de estações que se repetem em espiral. O outono sempre volta, trazendo folhas que parecem as mesmas, mas não são. E eu, feita árvore envelhecida, aprendo a deixar cair meus frutos sem lamento. Afinal, o que é a maturidade senão a arte de perder com graça?
Se me perguntarem onde estão os tesouros que acumulei, apontarei para o céu noturno: "Viraram constelações", direi!!! Se questionarem o que restou dos amores, mostrarei o pulso onde o tempo marca suas batidas — cada uma, um eco de um coração que já não bate junto. E se rirem de minhas cicatrizes, contarei que são hieróglifos escritos por uma vida que, mesmo nas dores, insistiu em ser poesia.
Agora, quando a noite cai e a lua desenha novos mapas sobre a pele, já não sigo suas rotas. Sento-me à beira do abismo que separa o sonho da realidade, e sorrio. Porque entendi, por fim, que a beleza não está no que conquistamos ou perdemos, mas no ato sagrado de ter tentado. E que até o vazio, quando acolhido, torna-se um cálice — pronto para ser preenchido, uma vez mais, com o vinho doce e ácido do agora....


Pois a vida, em sua infinita ironia, não nos pede que sejamos heróis.
Apenas que ousemos dançar, descalços, sobre os cacos dos nossos próprios espelhos...!!!!


TilaC


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1 Comments

  1. JOÃO BARROS DA COSTA16/03/25, 00:48

    E há quem persista em viver no Passado...
    O Passado não existe.
    Existe o Presente.
    O Futuro há-de vir.
    Não é?
    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

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