Naquela noite, o frio dançava com a chuva nas vidraças, e ela se encolhia sob a manta de algodão, a mesma que cheirava a canela e segredos antigos. Na mesa de madeira rachada, uma vela tremia, projetando sombras que se tornavam personagens: um dragão feito de dobras no tecido, uma fênix desenhada pela fumaça do chá...
Escrevia sobre amor!!!
Sobre amor em letras miudas, tão pequenas que só um coração atento as decifraria.
"O amor é um jardineiro noturno", começou, enquanto a tempestade batia palmas lá fora. "Planta rosas nos lugares onde cairam meteoros e rega o deserto com as proprias lágrimas. As vezes, disfarça-se de silêncio. Outras, de um café esfriando no parapeito da janela, esperando..."
A chuva desenhava codigos no vidro. Ela imaginou que eram mensagens de algum reino submerso, sereias pedindo emprestadas suas metaforas, talvez... Molhou a pena no tinteiro (azul-cobalto, como o olhar de alguém que ela não via há muitas eras) e continuou:"Te amo como as raízes amam a terra: no escuro, sem pressa, construindo castelos onde ninguém vê. Te amo como o rio que insiste em ser mar, mesmo sabendo que o sal vai doer. Te amo em linguas extintas, em braile, em sinais de fumaça que as nuvens roubam antes que alguém leia."
A manta deslizou um pouco, e o frio mordeu seu ombro. Ela sorriu, lembrando das mãos que a haviam tecido — avó? mãe? — e como cada ponto guardava um pedaço de história. Enrolou-se mais fundo, transformando-se em um casulo de palavras.
Na pagina seguinte, inventou um pais onde os amantes se comunicavam por auroras boreais. Onde os abraços eram traduzidos em constelações e os desencontros, em chuvas de petalas de magnolias. Escreveu até que a vela se tornou um cotoco tremulo e a xicra de chá, um lago frio de jasmim esquecido...
Quando a tempestade cansou-se de gritar, ela olhou pela janela. A chuva havia parado. No céu, a lua, aquela velha confidente piscou, iluminando algo na varanda: uma flor nascendo entre as frestas do assoalho, azul como sua tinta....
Ela sorriu, molhou o dedo no resto do café frio e escreveu na vidraça embaçada:
"Te amo até nas histórias que não ousarei contar.
Até nas noites em que a fantasia for só isso:
um cobertor de algodão,
uma pena,
e o mundo lá fora,
tão grande,
tão frio,
tão cheio de pequenos milagres
que doem
de tão belos...."
E então, dobrou a carta em forma de barco.
...deixou-a flutuar na poça que se formara na soleira...
e observou enquanto a correnteza da madrugada a levava.
Para onde????
Não importava....
O amor, ela sabia, é uma carta sem destino!!!
Alguém a encontraria???
Alguém sempre encontra...
Enquanto dormia, finalmente, a tinta secou na página.
Era azul.
Sempre azul.
Como a saudade.
Como o primeiro segundo depois do adeus.
Como o pulso que insiste em bater,
mesmo sob a pele fria
da noite...
TilaC

3 Comments
Lá fora a chuva cairá.
ResponderEliminarUma e outra vez.
O ciclo da chuva, necessário à Vida, é como o Ouroboros: sem princípio, nem fim.
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
Okkkkkk... 🙄
EliminarDeus me de paciência!!! 😏🤣
Uma breve história...
Eliminar"Deus", chateado por haver quem tenha a ousadia de colocar o seu nome entre
aspas e farto de ler os textos algo confusos de uma tal de "TilaC", mandou chamar
a Paciência. Veio a Paciência. "Sim?..." - inquiriu a Paciência, também ela cheia de
tédio. "É por causa de alguma situação que esteja a acontecer no berlinde lá de
baixo, aquele verde, amarelo e azul, não é?" - inquiriu outra vez. "É." - respondeu
"Deus". "A destruição da Ucrânia por parte da Rússia? O genocídio que Israel está
a fazer na Faixa de Gaza, na Palestina? Se é por causa dessas ocorrências, posso
ir chamar a Paz. Ela tem mais vocação para esse tipo de assuntos..." - retorquiu
a Paciência. "Ãh... Pois... Esses casos... Se eu te contar um segredo, prometes que
não contas a ninguém?" - perguntou "Deus". "Prometo." - respondeu a Paciência,
enquanto, atrás das costas, cruzava os dedos indicador e médio da mão direita...
"Encarreguei o Trump de tratar disso. Até lhe disse para o país dele ficar com 'as
terras raras' da Ucrânia e para transformar a Faixa de Gaza numa mistura de Las
Vegas, com o Mónaco, com a Côte d'Azur, com a Florida, com a Quinta da Marinha,
em Cascais, com a praia de Copacabana, com o bairro do Leblon, no Rio de Janeiro
e com as praias da Costa da Caparica." - disse "Deus". "E ele?" - perguntou, com
algum interesse, a Paciência. "Ele disse que sim, claro. Ai de quem me disser que
não. No Céu não entra!". A Paciência perguntou, então, a "Deus", qual o motivo da
sua presença. E "Deus", a olhar para o seu pê cê, disse: "Está aqui uma escritora de
textos fantásticos, no sentido de Fantasia, entenda-se..., a pedir os teus serviços...".
A Paciência: "Tem de ser agora? Estava a ver 'O PREÇO CERTO', na R. T. P. - 1..."
"Deus": "Está bem. Podes ver. Hoje estou condescendente. Tenho andado a ler os
textos humorísticos que estão em 'blogs.sapo.pt', sobretudo alguns comentados
pelo João Barros da Costa...". A Paciência: "Quem?". "Deus": "ARKANOR...".
A Paciência: "Áh! Já podias ter dito... Sei quem é. Li os comentários dele em alguns
blogues de 'blogs.sapo.pt'. Imagina tu, que já fez quase quinhentos comentários!
Deve querer entrar para o 'Livro Guiness dos Recordes'... Eh! Eh! Eh!". "Deus": "Pois.".
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT