A tecedeira do destino

By TilaC - agosto 16, 2025

Era uma tarde de verão quando as palavras vieram, pesadas como frutos maduros prestes a cair dos ramos...!!!


Meu amor....
Escrevo estas linhas com o coração apertado, não apenas apertado, mas como um pergaminho antigo, dobrado e desdobrado tantas vezes que as suas dores viraram mapas de lugares que só eu conheci. Cada palavra que deixo aqui, sim.... é um pedaço de mim que ficará contigo.Quem sabe, quem saberá?... Um fragmento de osso, um sopro de alma, uma semente de instante que teimo em plantar no solo do teu ser, mesmo sabendo que a colheita será sempre a saudade.
Há despedidas que o tempo insiste em nos impor, relógios implacveis marcando horas que não escolhemos. São ventos que sopram contra a vontade da vela, correntezas que arrastam o barco para longe do porto desejado. E a alma? Ahhhhhh, a alma grita!!! Grita com a força de mil trovões em dias de calmaria, um clamor silencioso que ecoa nas cavernas mais profundas do peito. Ficar. Apenas ficar. Enraizar-se no chão que pisamos juntos, onde cada rugosidade do asfalto guarda a sombra dos nossos passos entrelaçados. Mas o tempo é um oleiro cego, moldando destinos com mãos que não ve o barro do nosso querer. E hoje, mais do que nunca, eu entendo o peso da palavra saudade. Não um peso leve, de pluma, mas o peso denso e dourado do sol poente, que puxa o dia para o abismo, deixando para trás um céu ferido de cores e ...
A saudade...???
Ela veste-se de mil disfarces. É o teu sorriso aquele que não era apenas curva de lábios, mas aurora que rasgava as minhas névoas matinais, iluminando até os cantos mais empoeirados do meu dia. É o som da tua voz não apenas palavras, mas uma melodia ancestral que acalmava a minha inquietude, um canto de sereia que me guiava de volta a superfície quando eu me perdia nos meus proprios abismos. É o abraço, sim, o abraço (que ficou por dar) que era mais que dois braços... era fortaleza, era refugio contra os dragões invisiveis do mundo, era o porto seguro onde o navio cansado do meu ser finalmente encontrava amarra. É a tua presença um simples respirar ao lado que era bússola, lembrete constante de que, num universo tão vasto e frio, eu nunca, nunca estava só. A tua existência era a prova tangível de milagres.
Parto....
A palavra soa como uma porta rangendo num corredor vazio. Mas o que é partir quando se leva um universo dentro???? Levo comigo cada detalhe, cada microcosmo do nosso tempo. Aquele fio de luz preso no teu cabelo numa tarde de verão. O modo como a tua mão tremia ligeiramente ao segurar o primeiro gole de café frio. A gargalhada que escapava como um passaro assustado quando menos esperavamos. Cada instante, cada suspiro, cada olhar trocado não se perdeu. Gravou-se.
Não como tatuagem invisível.... mas como constelações indeléveis no céu negro do meu interior. São estrelas guia, pontos luminosos que formam a silhueta do teu nome no firmamento da minha memória.
E.... se os caminhos da vida, esses tecelões caprichosos, não nos permitirem continuar lado a lado, entrelaçando os nossos passos na mesma trilha… Se a geografia do destino nos afastar, transformando o "nós" em dois "eus" separados por vales e montanhas de tempo… que ao menos me seja concedida a dádiva serena e imensa de continuar a amar-te. Em silêncio.....
Um silêncio que não é vazio, mas templo. Um amor que não exige palco nem plateia, que não clama por reciprocidade como um mendigo, mas que se oferece como uma fonte secreta no deserto, fluindo puro e constante, mesmo na distância. Amo-te com o amor quieto das coisas eternas. Como a terra ama a semente que já partiu. Como o céu ama a estrela que já se apagou há milênios...!!!
Despeço-me....
As palavras são véus frageis tentando cobrir o abismo. Não me despeço porque o amor esvaiu-se, evaporou-se como orvalho ao sol. Jamais!!! O amor permanece, sólido como rocha no fundo do mar, mesmo quando a superfície é agitada por tempestades. Despeço-me porque, às vezes, o amor mais profundo, o mais corajoso, é aquele que sabe que segurar pode ser aprisionar. Que o afeto verdadeiro também é ter a coragem de abrir as mãos, mesmo quando cada dedo grita para se fechar. É entender que o voo do outro pode exigir céus que não são os nossos. Soltar não é desistir; é confiar. Confiar na força das asas que ajudamos, mesmo sem querer, a fortalecer. Confiar que o vento que leva é o mesmo que um dia poderá trazer de volta. E ainda assim, dentro de mim, no núcleo mais íntimo do meu ser, onde residem os sonhos mais antigos e as verdades mais cruas, tu terás sempre lar. O lugar primordial para onde a essência do meu ser sempre retorna, cansada, ferida ou apenas em busca de luz. O endereço da minha paz.
Se um dia....
Em alguma curva imprevista do amanhã, quando as estrelas alinharem os seus destinos de uma forma que hoje não podemos ler, as nossas estradas se cruzarem novamente… Que seja com a mesma intensidade pura e desarmada do primeiro olhar. Aquele instante em que o mundo desfocou, os ruídos silenciaram, e só existiu o terremoto silencioso do reconhecimento. Que não haja cinzas do passado, nem sombras de magoas, apenas a chama viva e pulsante do que nunca, verdadeiramente, deixou de existir. Até esse hipotetico e desejado dia, eu sigo, caminho pelos meus caminhos, enfrento as minhas estações, aprendo as minhas lições. Mas sigo levando você em mim. Não como fardo, mas como seiva. Como a melodia de fundo de todas as minhas canções. Como o nome secreto que escrevo na areia a beira-mar, sabendo que a onda vai levar, mas também sabendo que o mar, esse grande guardião, sempre guardará a essência do que foi inscrito.
Você é o eco no meu silêncio....
.... a cor no meu cinza, a nota de poesia na minha prosa mais banal. É a fantasia que teima em colorir a realidade, a lembrança que aquece o frio da ausência. Parto com o coração em pedaços, sim, mas cada pedaço brilha com a luz do que vivi. E nesse brilho, encontro a coragem para o adeus. Porque um adeus, quando regado por um amor assim, não é um ponto final. É apenas uma pausa… respiratoria, dolorida,mas cheia da esperança silencisa de que, em algum lugar do vasto tecido do tempo, os nossos fios voltarão a se entrelaçar. ...!!!!
Até lá, meu amor....
Até lá...!!!


TilaC


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